quinta-feira, março 22, 2007

MEU PAI ME TRAIU

Descobri agora, depois dos cinqüenta anos, que pai é imperfeito. Ele morre. Um péssimo exemplo que me recuso a seguir. Desaparece da vida da gente e deixa um vazio imenso. Faz-nos sentir culpados. Deixa-nos os questionamentos. Aqueles que não tivemos tempo de discutir com ele. O meu tinha oitenta e um anos. Vivíamos separados fisicamente por uma distância de quatrocentos quilômetros mas tínhamos uma identidade forte. Nos visitávamos com certa freqüência e o telefone foi um instrumento eficaz em nossa convivência. Dos quatro primeiros filhos, da união com a minha mãe, eu era o preferido. Isto chegou a me incomodar em certa época porque sentia o ciúme de meus irmãos. Depois descobri que era assim e pronto. Com uma outra companheira, a última da vida dele, teve seis filhos e agiu do mesmo jeito. Escolheu a terceira filha como preferida e, com a morte desta, transferiu a preferência para o sexto e último filho. Pelo menos dos que eu conheço. Tinha fascínio por mulheres. Tanto que depois da separação de minha mãe, com sete ou oito anos de casado, se apaixonou e desapaixonou uma centena de vezes. Trocava de companheira três vezes por ano. Nas nossas conversas de adulto, quanto questionei este comportamento que manteve até por volta dos cinqüenta e cinco anos, ele resumiu a própria filosofia: “Mulher só serve quando sabe perdoar. Quando entende a minha necessidade e me conforta depois das minhas indecisões”. Indecisão para ele era não saber se ficava com a nova conquista ou se voltava para casa. Era confuso no amor às mulheres mas tinha charme. As namoradas, mesmo traídas, o adoravam. Lembro de uma época em que ele andava com três namoradas. Iam em nossa casa juntas e até faziam gracinhas com nós as crianças, para agrada-lo certamente. Era amante da liberdade. Nunca censurou, que eu me lembre, a nenhum filho, por esta ou aquela atitude. Lá pelos meus quinze ou dezesseis anos ele me flagrou fumando com a turminha de colégio. Quando o vi se aproximando, era a minha vez de dar uma tragada. Fechei na mão o resto de um cigarro que passava de boca em boca. Ele chegou, disse alguns gracejos machistas com relação às meninas que estavam mais adiante, e seguiu no seu passo cadenciado. Foi uma tortura agüentar uma brasa de fumo na palma da mão. À noite, já em casa, ele me sapecou a pergunta mais cretina que pude ouvir: “como está a sua mão, meu filho, queimou muito?”. E acrescentou que se eu quisesse fumar que aprendesse a colocar o cigarro entre os dedos, com elegância. Olhou meu ferimento, passou leite de magnésio e não fez mais nenhum comentário. Na terceira série do ginásio fui reprovado por meio ponto em matemática. Desabei ao ver o quanto eu tinha brincado naquele ano, querendo ser artista, tocando violão, saindo com a turma para as primeiras festas noturnas. Nesta época já estávamos separados. Eu em Teresina e ele no interior do Maranhão, trabalhando e correndo atrás de novas parceiras. Minha irmã mais velha, fofoqueira, deu a notícia a ele do meu fracasso. Ele veio a Teresina e de mansinho deu um jeito de me dizer que apoiava o meu novo modo de vida, com cabelo comprido, violão debaixo do braço ensaiando as músicas de Geraldo Vandré e uma aparência desleixada mas chic para a época. Acrescentou que se eu quisesse estudar mais também tinha o apoio dele. Acho que foi o primeiro choro sentido que tive na vida e no ano seguinte virei professor de matemática. Só não tirei dez em todas as provas porque em duas o professor me perseguiu e tirou meio ponto, acho eu. Viajamos muito juntos. Quando eu pedia para dirigir, alegando que ele podia estar cansado, respondia que eu ainda não sabia andar em estrada. Fiquei algumas vezes aborrecido mas hoje sei que nunca passei de uma criança para ele. Essa coisa que só pai pode entender. Nos últimos anos, quando a idade carimbou as suas possibilidades, malandramente ele inverteu os papeis. Passou a ser meu filho mais novo. Meu e de meu irmão Afrânio, que mora no Rio de Janeiro. Consultava-nos para tudo e algumas vezes, tenho certeza, fez chantagem emocional para eu largar tudo e ir visitá-lo. Antes da sua morte, no dia 19 de março, traído pelo coração, passamos vinte e oito dias juntos, em total cumplicidade. Dividia meu tempo entre o trabalho e a sua companhia. Ouvindo-o falar da vida, das mulheres e do trabalho que fez no Piauí, para implantar o serviço de transporte coletivo interestadual e intermunicipal pelas estradas federais. Ele foi um dos grandes do antigo DNER, atual DENIT. Ajudou a implantar esta repartição federal no Estado. Orgulhava-se de ser um Cavalcante, de ter avós maternos italianos. Tinha o brasão e a história da família em um livro que folheei várias vezes. Mas também falava com orgulho, de acordo com o interesse, que tinha nas veias o sangue dos índios cearenses, por parte dos avós paternos. Desconfio que meu pai nunca se preocupou em dar bons exemplos, porque nunca exigiu nem escondeu nada dos filhos. Nunca ditou normas. Não foi um hipócrita. Mas tenho a mais absoluta certeza que o único mau exemplo que nos deu foi a morte, porque escondeu o dia e a hora. O seu último gesto para mim, antes de entrar na sala da cirurgia que se tentava para lhe dar melhor qualidade de vida, foi de um polegar esticado para cima como se dissesse: “ta tudo OK, haja o que houver ali dentro”.

sexta-feira, março 09, 2007

INSPIRAÇÃO DEPENDE DO "GANCHO"

- Marcus, por que você nunca mais escreveu nada em seu blog? - Porque estou sem saco. Sem inspiração. - Pois fala dessa falta de “saco” para escrever. Taí! Já te dei o mote. O diálogo é verdadeiro. Foi a reprimenda que recebi hoje da amiga Ana, ao vivo. Olho no olho. Ana Cristina Batista é jornalista. Confessa que tem vontade de escrever, admira quem tem facilidade em transformar qualquer assunto em texto. Mas nunca sabe como fazer para começar. Pois é. Agradecido pelo mote. E devolvo aqui a reprimenda: não sabe como começar? É capaz de dar um mote assim fenomenal e não sabe como começar? Eu é que sou meio tapado. Abandonei desde a segunda quinzena de fevereiro vários assuntos quentes, pulsantes, com a justificativa de que “estava sem saco”. O fim da novela Páginas da Vida, por exemplo. Ouvi inúmeras críticas abusadas. Os críticos se perguntaram, via de regra, por que uma novela que fugiu à realidade, inventando aparecimento de alma, fez tanto sucesso. De minha parte a explicação é simples e óbvia: o autor, como os melhores autores do mundo, recorreu ao REALISMO FANTÁSTICO, de que é mestre o colombiano Gabriel Garcia Marques. Ou alguém de bom senso colocaria em dúvida a genialidade do romance CEM ANOS DE SOLIDÃO? Alguém se perguntou por que os contos árabes das Mil e Uma Noites fazem tanto sucesso? Faça-se um levantamento em toda a literatura premiada e a constatação é imediata: ou trata de realidade histórica ou realismo fantástico. Os autores de telenovela descobriram isto há anos. Os críticos é que ainda estão discutindo apenas gosto pessoal ou se apoiando em intelectualidade duvidosa. Outro assunto que deixei escapar nesta semana foi o DIA INTERNACIONAL DA MULHER. Observei vários comportamentos das colegas de trabalho, anotei, me meti com elaborada e proposital opinião machista, fui rechaçado, mas no fim concluí que somos todos, homens e mulheres, uns bobos úteis e disponíveis para a inteligência do marketing.
Pronto. Acho que aproveitei bem o gancho da Ana. No mais é pedir desculpa aos leitores pela ausência prolongada.
EM TEMPO: Hoje é aniversário da Ana C Batista. Como ela nunca revela a idade só posso dizer que temos mais de trinta anos de amizade.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

TODAS, QUEM, CARA PÁLIDA?

“Bom dia a todos e a todas”. A saudação corriqueira inventada pelo governador do Piauí, Wellington Dias, é marca registrada. Deveria ser usada, portanto, somente por ele. Governador é como um pop star, escritor ou poeta renomado. Pode se dar ao luxo de criar expressões, moda e neologismos. Se bem que no caso de governadores uma invenção duvidosa poderia muito bem vir protegida por um decreto proibindo a usurpação. O governador Wellington não tomou cuidado e o seu gracejo vernacular virou moda. Naturalmente entre seus auxiliares mais diretos. Eu achava que era só um hábito para agradar. Digamos... um esforço de puxa-saquismo. Mas que nada! A Coisa é muito mais perigosa. Está contaminando os auxiliares mais distantes. Hoje mesmo tem uma mensagem para o e-mail de muitos jornalistas, mandada pela assessora de imprensa do DETRAN, desejando a “todos e a todas um carnaval de paz e tranqüilidade”. Todas, quem, cara pálida? Jornalista que confunde o ofício com a oportunidade agradar não devia escrever. Principalmente quando não sabe o que é um pronome indefinido. “Bom dia a todos” (os presentes), "Desejo a todos" (os colegas, ou jornalistas) já está contemplando homens, mulheres, gays, lésbicas, simpatizantes e crianças. O acréscimo do “todas”, modinha governamental, não passa de gracejo, exagero verbal, incorreção que enche o saco de ouvintes e leitores mais atentos, compromissados com o bem falar. Quisesse a assessora de imprensa do DETRAN desejar um bom carnaval a jornalistas, individualmente, por sexo, que o fizesse com auxílio de artigos definidos que existem para isto: “desejo aos jornalistas e às jornalistas um carnaval... etc. etc”. Ser jornalista não é a mesma coisa que governar um Estado. É bom e recomendado que o jornalista persiga o correto para acertar sempre. Para o governante um erro a mais ou a menos não faz diferença. O marketing encobre.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

AQUECIMENTO GLOBAL É EVOLUÇÃO

No mês de novembro do ano passado, incentivado pela leitura do óbvio em sites ou por programas de TV, fiz aqui no blog dois artigos comentando o comportamento dos ecologistas e a perca de tempo dos ditos cientistas do meio-ambiente. Claro que reconheci e reconheço sempre a minha ignorância sadia e proposital no assunto. Por conta disto, agora estou recebendo e-mails e ligações de amigos e leitores, críticos e atrevidos que nem eu, perguntando se não vou engolir o que disse. Lembram-me dos estudos que estão sendo alardeados agora sobre o aquecimento global, que o planeta terra está correndo riscos e outros respeitáveis blablablás. Morro afogado pelas águas dos oceanos e não mudo um milímetro do que já elaborei intuitivamente sobre as mudanças climáticas mundiais. E não só intuitivamente. Mas porque tenho uma boa memória e sou capaz de citar tim-tim por tim-tim tudo o que já foi publicado sobre o assunto. E garanto que quem mudou de opinião foram os ecologistas e cientistas. Basta lembrar que na escola, durante décadas, aprendemos que as florestas são o pulmão da terra. Cortar árvores comprometia a qualidade do ar que respiramos. Há cerca de dez anos os cientistas mudaram de opinião. Quem faz a limpeza do ar são os oceanos e não as florestas. Elas contribuem apenas com três por cento deste trabalho. Há pelo menos oitenta anos um fenômeno chamado El Niño entra e sai de moda, em ciclos de seis ou dois anos alternados, Segundo os estudiosos é o responsável pelas mudanças climáticas. Listo, se for necessário, pelo menos 21 catástrofes mundiais provocadas por ele. De furacões a maremotos. Em meio a isto também entrou na pauta das discussões científicas o gás CFC que teria destruído parte da camada de ozônio da terra. Mais recentemente, o que os cientistas estavam dizendo é que o pum dos animais - vacas, ovelhas e porcos, é que faz estragos no nosso tão protetor ozônio. E tem mais. Os culpados são normalmente os povos que não têm nenhum grau de parentesco com os cientistas. Quer dizer: os estudiosos suecos apontam o dedo para os países americanos. Estes, por sua vez, dizem que o vilão da história são os orientais. O Brasil, cujas riquezas naturais são as mais cobiçadas em todo o mundo, está sob outro foco. É o país que pode salvar o mundo. Se parar de cortar árvores, se deixar de criar gado, se não fizer escavações de minérios, se não produzir mais aço etc e tal. Aço depende de carvão vegetal em sua composição. As atividades econômicas, diga-se de passagem, capazes de catapultar o Brasil para o clube dos países ricos, têm de ser paralisadas. Acredito no aquecimento, há números e estatísticas que comprovam o fenômeno. Aliás o aquecimento foi o grande responsável pelo fim da era glacial. De lá para cá o gelo da terra vem derretendo em maior ou menor intensidade. Duvido é da conclusão científica que entrou na moda agora. Dependendo dos interesses comerciais do mundo, no futuro bem próximo vão encontrar outras causas. Particularmente só tenho uma certeza. Todas as mudanças da natureza, a extinção de espécies e o surgimento de outras, fazem parte dessa coisa fabulosa que é a evolução. Antes mesmo da revolução industrial, do aumento populacional e do corte de florestas ela estava presente na vida de cada um. A invenção de máquinas quase perfeitas, humanóides, e os avanços da medicina em si são a comprovação da evolução do homem. E o que vai garantir a sua sobrevivência não é o interesse comercial. Não é a discussão de quem destrói mais os recursos naturais. É sobretudo a inteligência.
(Foto e criação extraídas da internet)

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O LULA REINVENTOU O PND

PND era o PAC dos governos militares. PND significava Plano Nacional de Desenvolvimento. PAC, inventado e lançado hoje pelo presidente Lula, significa Programa de Aceleração do Crescimento. Li e reli o PAC lançado hoje. Tentei descobrir, com os meus parcos conhecimentos de economia, de onde sairá o dinheiro para bancar essa proposta milagrosa de investimentos para gerar um crescimento de mais de quatro por cento somente em 2007. Não descobri. O Governo aposta no setor privado. Mas o setor privado aposta no Governo. Aliás o setor privado vem aguardando há quatro anos algumas garantias do Estado para fazer os investimentos que tem vontade. Nenhum empresário tem coragem suficiente de investir em negócios cujas garantias não estão muito claras. Quem tem mais de quarenta anos, ou que sempre foi antenado, sabe o que era o PND dos governos militares. Calhamaços e pacotes de estudos, impressos em papel caro e encadernação chamativa, com um enunciado lindo, com previsões e metas, que no final das contas não passavam de belos discursos escritos por economistas brilhantes no argumento e miseravelmente obtusos na prática. (Tenho 28 volumes do PND em minha magra biblioteca) Estou sentindo um cheiro de PND no PAC petista. O PAC não prevê o controle dos gastos públicos, onde está o ralo da economia brasileira. A única vantagem, bem colocada, são as regras para reajuste dos salários mínimo e dos servidores. Vantagem para o Governo e para a iniciativa privada, diga-se de passagem. Se houver mesmo o crescimento projetado, nenhum trabalhador poderá reivindicar uma fatiazinha de benefício. Está na regra criada agora que isto não será possível. E é regra do Partido dos Trabalhadores. No mais é apostar no imponderável. Aposto que não vai dar certo. Queira Deus que eu esteja errado. E, como dizem alguns leitores do blog, é só mania de malhar o Governo. E tem graça malhar quem está fora do poder?

terça-feira, janeiro 16, 2007

JORNAL IMPRESSO TEM FUTURO, SIM!

A grande pergunta hoje sobre o futuro do jornalismo impresso é se vai ou não acabar. Com a explosão da internet, em que sítios de notícias nasceram de todo modo e tamanho, os setores econômicos começaram a se questionar se valia à pena continuar investindo no jornal, do modo em que ele é concebido hoje editorial e graficamente. Particularmente acho que sim. O jornal impresso terá vida longa. Mas haverá mudanças radicais no modo de impressão. Como já houve ao longo dos últimos dois séculos. Vislumbro, por exemplo, a impressão eletrônica. Não para ler em tela de computador, mas numa telinha fina que o leitor poderá carregar debaixo do braço. E se duvidarem vai haver mecanismo de virar e dobrar a página. As profissões de gazeteiro, distribuidor de jornal, empacotador e outras que vivem para fazer circular a notícia com assinantes e bancas de jornais se acabarão. A de jornalista de impresso, nunca! A internet é lixo puro. Os blogs e sítios de notícias, embora despertem muita curiosidade e acessos irrestritos no primeiro momento, nunca terão, salvo raras exceções, o principal produto que garante o consumo do jornal impresso: a credibilidade. Além da credibilidade o veículo dá comodidade ao leitor. Em uma mesma edição, feita por jornalistas experientes em apurar as notícias, o consumidor terá todas as variáveis de informações: política, economia, esporte, polícia, variedade, cidade, análises nacionais e internacionais, opiniões conceituadas, oportunidade de investimento e o que mais se imaginar para o gosto do leitor. Na internet normalmente os sítios são especializados, quando muito. Porque na maioria das vezes se baseiam apenas em especulações e opiniões de duvidoso conceito. Portanto não passa de mero achismo afirmar que os jornais impressos terão vida curta. Vamos continuar comprando e assinando este tipo de jornalismo, que é o mais consistente. Com a nossa telinha fina, que poderemos comprar ou receber de graça dos grandes órgãos, como fazem as operadoras de celular, teremos on line todo o caldo de informações. E apuradas por quem realmente tem competência. Apostar simplesmente na internet como fonte de informação é apostar no imponderável. Primeiro porque não é absolutamente confiável. Segundo e definitivamente porque a garantia do consumo de notícia é dada pela credibilidade e pela ética de quem a apura.

terça-feira, janeiro 02, 2007

MESTRE EM PERORAÇÃO, EU?

O respeitável professor Aldir Nunes, intelectual e excelente observador político, deu-me a honra da visita a este blog. E, melhor ainda, catucou a minha inspiração. Com as arrumações de final de ano estava dando vez à preguiça no pensamento mais apurado para escrever. O professor Aldir Nunes comentou a postagem anterior, sobre a fraca e improdutiva polêmica que ensaiei abrir com os “artistas piauienses”. O teor do comentário: Esses "artistas" contestadores da vossa "argumentação/peroração" sobre "cultura/folclore" são na realidade uma súcia de analfabetos linguísticos e culturais... No entanto, mestre da peroração... profesor Marcus: a expressão "folklore" (sabedoria popular, traduzida do inglês), literalmente, é cultura!!! Bom... Deixe-me ver como contestar o professor Aldir Nunes, sem tirar os méritos da sua visão sobre cultura. Eu afirmei no texto anterior que não confundo cultura com folclore. Fica mantida a afirmação. Cultura para mim é universal. Por exemplo: Shakespeare emociona e é compreendido por todos os povos, de todas as línguas. Mesmo que o trabalho dele em inglês seja montado por um brasileiro, por um francês ou um haitiano. Uma poesia búlgara, ou árabe, é consumida e entendida mundialmente simplesmente porque é boa poesia. Da mesma forma que poderia não agradar por ser de qualidade duvidosa. O Brasileiro Paulo Coelho(*) é amado e paparicado no mundo todo porque sabe lidar com as palavras, sabe falar de coisas universais, mesmo pensando e tendo toda uma formação cultural brasileira. Bom. Chega de exemplos! Agora vamos ao folclore, que não passa, para mim, de manifestação cultural localizada. A Sônia Terra gingando e soltando a voz no Coisa de Nego pode até agradar em todo o mundo, porque alguém vai achar que ela é africana, daquelas tribos sub-desenvolvidas. Mas garanto que nem todo mundo vai entender o contexto. Nem mesmo a grande maioria dos piauienses. Nós não estamos preparados culturalmente para consumir história através do folclore. Portanto, professor Nunes, continuo defendendo que folclore não é cultura, embora deva ser compreendido como tal. Folclore é folclore e olhe lá! Tem um monte de manifestação cultural aqui mesmo no Nordeste que foi inventado só para inglês ver. Não faz parte das tradições de nosso povo. Tampouco nasceu no berço dos nossos ancestrais. O Bumba meu boi, por exemplo, a que povo pertence? Aos piauienses, aos maranhenses, aos paraenses ou aos mineiros? Mineiro, sim. porque lá também tem um arremedo de Bumba-Meu-Boi. Ou seria apenas uma adaptação do folclore húngaro, onde existe uma história parecida de encantos e magia para proteger os vassalos em suas vontades, contra a arrogância dos senhores feudais? Diferentemente da cultura, um conjunto amplo de características humanas que não são inatas, que se adquire suando muito, pesquisando, tendo a mente aberta para o aprimoramento de valores, o folclore se transmite por osmose. O professor Nunes, ainda no seu comentário, disse que os artistas são contestadores de minha “argumentação/peroração” E diz que sou mestre em peroração. Concordo que faço exercícios de argumentação. Contesto o mestrado em peroração. Não a pratico como verbo intransitivo. Nem como verbo transitivo indireto ou transitivo direto. Perorar é verbo para político. Eu sou apenas jornalista, um especialista em generalidades. E portanto, admito, de cultura duvidosa.
(*) Recorri a Paulo Coelho como exemplo de literatura só para facilitar a compreensão dos que não foram além.
Lembrete: Há um equívoco do professor Nunes na tradução de folklore. No inglês quer dizer realmente sabedoria popular. Mas para traduzir literalmente cultura há uma expressão cognata: culture.

terça-feira, dezembro 12, 2006

QUEM SÃO OS ARTISTAS II - O RETORNO

Comentário assinado por “Artistas Piauienses” postado neste blog, protestando contra as considerações que fiz sob o título “QUEM SÃO OS ARTISTAS?” IPSIS VERBIS: “Caro jornalista nos artistas queremos saber quem é você para criticar a cultura piauiense. Nem daqui você é e nem acompanha a excelente administração da nossa presidente Sônia Terra. Valorizar a cultura é isto que ela faz. Você lembra do que um dia disse sobre o trabalho da nossa exelente artista Maria da Inglaterra, que se recusava acreditar que ela podia ser representante da cultura piauiense? Respeite os nossos artistas e vá estudar os verdadeiro significado de cultura para poder criticar quem se esforça para manter viva as nossa tradições.” Pelo visto os artistas piauienses, pelo menos os que assinam este comentário, necessitam urgentemente voltar para a escola. Escrevem mal e lêem pior ainda. Dizem que eu critiquei a cultura piauiense, que a desrespeitei. Ouviram-me falar preconceituosamente em Maria da Inglaterra. Quem leu a postagem “QUEM SÃO OS ARTISTAS?”, naturalmente quem sabe ler, interpretou que não há ali nenhuma crítica. Trata-se apenas de uma opinião contrária ao manifesto gratuito, marketing extemporâneo ou institucionalização do puxasaquismo. Os artistas querem saber quem sou eu para criticar a cultura piauiense. Seria um insano se o fizesse. Cultura para mim é um conjunto de características que se forma independente da vontade do homem, embora dependa do seu comportamento e do seu conhecimento, da sua formação intelectual. Mas garanto que posso, como cidadão piauiense, discordar e criticar a forma como ela vem sendo tratada e conduzida no Estado. Os artistas acharam-me preconceituoso quando disse, em uma palestra para formadores de opinião, que não aceito qualificar a compositora e cantora Maria da Inglaterra como “legítima representante da Cultura Piauiense”. Mantenho o que disse. O Máximo que se pode dar a ela é o título de rainha do folclore. É impossível ter um “legítimo” representante cultural cuja obra ninguém conhece, além do simplório Peru Rodou. Tenho a convicção de que assim trato o assunto com a dignidade e com a seriedade que ele merece. Maria da Inglaterra tem todo o respeito dos piauienses, e o meu particularmente, porque supera a deficiência do analfabetismo e se apresenta com altivez. Não busca a pena dos seus admiradores, mas o reconhecimento. E finalmente quero pedir com humildade aos artistas piauienses que não atribuam a mim as suas deficiências culturais. Eu não confundo cultura com folclore. Tampouco artes plásticas com artesanato.

sábado, dezembro 09, 2006

QUEM SÃO OS ARTISTAS?

A julgar pelo manifesto que está circulando, enviado para e-mails de jornalistas, Sônia Terra, presidente da FUNDAC, é uma unanimidade. Sou contra! Contra Sônia Terra, não. Sou contra a unanimidade. E também contra o manifesto, que começa assim: “Nós artistas nos reunimos...” Nós quem cara-pálida? O segundo parágrafo do manifesto, cujo título é "FICA SONHA TERRA", fez-me faltar o fôlego: “Nos últimos 4 anos houve uma sintonia a nível nacional e estadual entre o governo e artistas, escritores, tribos, quilombos, guetos, asfalto, ribeirinhos, sertões, salões performáticos, estúdios informáticos, periferias, parques, municípios, assentamentos rurais e espaços comunitários organizados...” Faltaram os "afins", nos quais me incluo. Portanto mais um motivo para ser contra. Como afins não fui consultado. Não sei onde encontrar os artistas de “asfalto, ribeirinhos, guetos, quilombos, sertões, parques, salões performáticos e informáticos”. Por isto liguei para o Sindicato dos Artistas para reclamar do preconceito contra os afins. Surpresa! Lá ninguém sabe de nada. E ainda ouvi a explicação de que o sindicato é contra este tipo de manifesto, "porque configura ação política para pressionar o governador por cargos". A mesma posição foi manifestada pelos sindicatos dos músicos e dos escritores. Vou continuar procurando quem são os artistas que assinaram esta peça... digamos assim, performática. Considero Sônia Terra uma das melhores coisas que aconteceram nos últimos quatro anos no Piauí. Ela é inteligente, esforçada, alegra, sincera e sua dança no Coisa de Nego é uma revelação. O mesmo não se pode dizer da voz, quando canta. Mas quem liga pra esse detalhe quando pode ver uma negra linda fazendo gingado e resgatando o melhor da cultura brasileira?
Sobre o trabalho como presidente da FUNDAC, nada posso dizer porque não acompanhei de perto. Mas posso apontar falhas, se me derem tempo. Como já falei por diversas vezes sou um especialista em opiniões. E quando é para ser do contra sou imbatível.
(Postado sem revisão final)

quinta-feira, novembro 30, 2006

PREVISÕES PARA 2007

Vez ou outra acordo invocado e tenho visões premonitórias. No fim do dia, ou de um certo tempo determinado, as coisas acontecem do jeitinho que vi na minha síndrome de pai-de-santo. De babalorixá. De mãe Diná, como já ficou provado na época da Copa do Mundo de Futebol. E nem preciso de cartas ou búzios. É só na base da invocação mesmo. Há uma semana venho sendo acossado para dizer alguma coisa sobre 2007. Será um ano bom no frigir dos ovos. Até julho com certeza o presidente Lula vai navegar em águas mansas. Vai ser uma mãe com as oposições, distribuir benesses aos tortos e à direita, insuflando insatisfações na esquerda. Depois daí salve-se quem puder. Sem crescimento econômico e com uma inflação lambendo os fundilhos dos erros de campanha, o bicho vai pegar. Na economia o país vai ter reboliço a partir logo de abril. Greve na educação e na saúde. Início das insatisfações no governo. E o PT vai ser o carro chefe das intrigas que vão estourar no segundo semestre. O Brasil vai sofrer muitas restrições aos seus produtos de exportação e o superávit corre o risco de ir ao beleléu. No primeiro ano do novo mandato dois ministros serão defenestrados. E mais um vai prestar contas com o Senhor. Não está claro se o senhor dos Céus ou do Inferno. Também está um pouco nebuloso se é ministro, auxiliar direto ou amigão do presidente. Mas é certo que alguém muito influente vai bater as botas. E por falar nisto o Piauí também vai se comover com a morte de um líder político em 2007. Mas não vai fazer falta. Ele já está na hora de descansar. Wellington Dias vai começar o ano com duas ou três cartas na manga, mas vai quebrar a cara antes do final do primeiro semestre. Isto porque vai nomear dois auxiliares trapalhões. Um é amigo do peito. O outro sairá das forças políticas que gostam de minar o terreno. O calcanhar de Aquiles dos dois governos do PT, no Brasil e no Piauí, será a segurança pública. Alguém vai deixar de cumprir os acordos com os bandidos e aí vem a reação. No Piauí o novo secretário, que não sabemos ainda quem é, pode largar o cargo no meio do caminho. Vejo também que vai assumir em meio a muitas manchetes de factóides. Vai se notabilizar pelo que diz e não pelo que faz. No Piauí muito desentendimento entre os poderes Legislativo e Judiciário. Mas no fim os dois vão se entender e todo mundo comemorar. Dois escândalos se ensaiarão e até dossiê vai ser distribuído contra gente do Governo. Este também é um ano de harmonia entre Estado e Município. Mas na virada de 2007 vai aparecer um ciumento para estragar tudo. Alberto Silva não vai conseguir terminar o curral do Albertão. Nem o metrô. E a Poticabana corre o risco de virar depósito de lixo. A mamona vai fazer água ao invés de biodíesel.
Mas tudo isto é muito óbvio, dirão os expertises em política e economia.
Eu respondo: a obviedade é um fascínio.

terça-feira, novembro 21, 2006

SOU UM ANIMAL PREDADOR

Aconselhado pelo amigo e leitor Willian Tito* visitei o site http://www.institutoninarosa.org.br/. Os propósitos da instituição são lindos. Há bons textos, bons conselhos para a defesa dos animais. É também voltado para a educação alimentar baseada em vegetais. O Tito garante que após ver o documentário “A Carne é Fraca”, produzido pelo site, com imagens fortes de abate de animais, mudou radicalmente os hábitos e até perdeu quase dez quilos. Eu acredito. Também vi o documentário e tive uma reação oposta. Abri o apetite para carnes de vitelo. São bezerrinhos criados com todos os cuidados para ter a carne macia e saborosa. São abatidos aos três meses de idade, no máximo. Selecionei até uma carta de vinhos para acompanhar pratos de vitelo com os mais diversos molhos. Acho que vai melhor com molho de shitake e combina com um tinto de variedade Cabernet. Como dizia, há excelentes argumentos no site mas há também espaço para pieguices, de acordo com a minha avaliação predadora. Tem um texto, por exemplo, condenando matar animais para comer com a justificativa de que eles foram criados para este fim. E arremata: “Se assim fosse, também poderíamos criar seres humanos para o sacrifício e seriam mortes justificáveis” Dá até vontade de aplaudir a “excelente idéia”. Só assim o homem deixaria de matar animais. Com a vantagem de que com a diminuição da espécie estariam resolvidos todos os problemas ecológicos. E de quebra os sociais também. Tem um outro trecho que condena os hábitos alimentares dos chineses assim: “Na China, o “melhor amigo do homem” é uma iguaria. Lá, como aqui, os cães são criados normalmente entre os homens e, quando o dono decide comê-lo, basta assobiar. O dócil amigo se aproxima, recebe uma forte pancada na cabeça e vai direto para a panela.” Totó na panela? Isto é inadmissível, uma aberração. Falta de sensibilidade culinária. Carne de cachorro combina mais com churrasco ao sal grosso ou chapa. Marinada em ervas picantes, então, deve ficar uma finura de prato. Eu já desconfiava que chinês só sabe comer ensopado. Afora outras afirmações obvias o site tem um trecho dizendo que peixe também sente dor. Que todo ser vivo sente dor. Um boi chora quando vai para o abate. Eu poderia fazer como o amigo Tito. Partir para uma alimentação mais vegetariana. Mas peraí. Vegetal também não é ser vivo? Pior que isso. É vivo e indefeso. Já pensou cuidar de um pé de brócolis, de alface, ou cenoura com todo o carinho e num belo dia, sem precisar nem assoviar para chamar, vai lá e degola o bichinho? Prefiro portanto os animais que podem correr, se esconder. Azar do totó chinês que se entrega ao abate em troca de assobio. Sou um predador e a minha consciência é animal. Mas o Tito está também corretíssimo. Alguém precisa, como já disse para ele, ter uma melhor consciência humana. Quanto ao site o classifico como mais uma ferramenta inocente onde os contaminadores interesses internacionais encontram espaço para ladainhas. O Brasil não pode parar economicamente. Tem que aumentar a produção de bois, carneiros, porcos, peixes, aves, caranguejos e lagostas para colocar no mercado ávido por carnes.
(*Willian Tito é jornalista, ator, autor, escritor, agitador cultural e ecologista. Mantém o blog forumdearteculturadopiauí.blogspot.com.)

terça-feira, novembro 14, 2006

O BRASIL É RECORDISTA EM PUNS

Descobri, entre incrédulo e desconfiado, que o Brasil será a nação responsável, no futuro, pelo fim do mundo. Isto mesmo, o fim do Universo. E a principal causa será o PUM das vacas. Não é brincadeira. Os cientistas do mundo todo é que estão dizendo isto. Um bezerrinho, da hora em que nasce até o momento do abate, criado em escala de consumo, com alimentação forçada para ficar logo pronto, produz nada menos que cinqüenta quilos de metano em puns. Provavelmente entre bufinhas e sonoros, penso eu. Os cientistas mediram, calcularam e garantem que o Brasil terá no futuro a melhor participação neste campeonato. É a Nação com maior perspectiva de crescimento na criação de gado, porque tem terras e condições climáticas. Calcularam também os puns dos porcos e das aves. Haja gás metano na atmosfera.. Uma criação de porcos, por exemplo, com cem mil animais, produz, além das bufas, material de esgoto correspondente a uma cidade de um milhão de habitantes. O problema aqui já é de fezes e não simplesmente de puns. Outro dado interessante: a produção de um simples quilo de carne bovina consome cinqüenta mil litros de água. Todos estes dados interessantíssimos foram divulgados no programa Invenção do Contemporâneo, que vai ao ar às segundas-feiras pela TV Cultura. O Tema de ontem foi A ignorância do futuro. O jornalista Washington Novaes mostrou e convenceu de que forma as mudanças climáticas ocorridas no mundo, e especialmente no Brasil, estão criando novas formas de relacionamento. O mundo, segundo o jornalista, tem que modificar todos os conceitos de exploração dos recursos naturais. E essas mudanças precisam ser repensadas estrategicamente por todos os países. Como todos os meus amigos sabem sou um anti-ecologista. Não dou a mínima para o alarde que eles fazem quando se voltam para uma causa. E vivo muito mais desconfiado ainda porque o Brasil tem sido a maior vítima deles. Volta e meia sai uma grande novidade e o Brasil é o vilão. Claro que o jornalista Novaes tem panos pra manga. Ele é colunista do jornal O Estado de S. Paulo, supervisor do programa Repórter Eco e consultor de meio ambiente da TV Cultura. No programa de ontem apresentou apenas o estudo dos cientistas, sem tecer qualquer comentário. Mas eu sou especialista em generalidades e como tal tenho opinião para tudo. Portanto posso dizer que essa mania de ecologista contar pum de vaca não passa de argumento para ficar contra o progresso do Brasil. O que eles querem é alardear que o Brasil está destruindo a floresta amazônica para criar gado, que isto está errado. Errado é não se desenvolver economicamente. Se querem contribuir devem cobrar dos cientistas a invenção de umas gotinhas contra flatulência dos rebanhos bovinos.
Outro questionamento que podemos fazer é por que nunca ninguém se preocupou com os carneiros da Irlanda. Quando eu era criança aprendi, logo nas primeiras aulas de ciência, que dentre todos os mamíferos o carneiro é o mais peidão.

terça-feira, outubro 31, 2006

CELULAR CLARO. A VIDA POR UM CHIP

Acredito em slogans. Principalmente quando são bem pensados. O da operadora de celulares Claro, por exemplo, é um primor: “Claro, a vida na sua mão”. Quem tiver uma linha celular Claro e precisar de alguma forma dos serviços só não comete o suicídio se estiver muito bem resolvido emocionalmente. Falo com o conhecimento de quem passou pela experiência. Vou tentar resumir o martírio de que fui vítima. Dia 15 de setembro, em Brasília, verifiquei a falta de sinal no meu aparelho. Fiz a primeira ligação para o atendimento. O número é 1052, de qualquer telefone, segundo a Claro. Depois de intermináveis segundos ouvindo instruções teclei o 9, para falar com um atendente: - Bom dia, meu nome é Fulana, com quem eu falo? - Bom dia Fulana. Meu nome é Marcus. - Senhor Marcus qual o número de seu telefona com o código de área? - Pois não. Meu número é... (passei o número) - Mas este não é o telefone que o senhor está usando agora! - Claro que não. Ele está com problema e não consigo ligar. Estou fora da minha área de cobertura e está aparecendo uma mensagem que o cartão SIM não foi reconhecido. - O senhor lembra se mexeu no PIM do telefone? - Como assim? O que é PIM? - PIM é um código que o senhor recebe. O Senhor mexeu? - Não devo ter mexido porque nem sei o que é. - O senhor lembra se o aparelho pediu para digitar o PIM ou o PUK em algum momento? - Uai, moça, e o meu telefone faz isto? - Senhor esses são códigos de segurança. - Desculpa. É que não entendo muito bem dessas coisas. Mas como eu posso encontrar esse PIM e esse PUK? - Estão no cartão do seu chip senhor. - Mas eu não tenho chip senhorita. (aqui já começava a irritação natural de quem é sabatinado com uma linguagem difícil de compreender) - Sei, senhor. Mas seu telefone tem um chip. Por favor retire e coloque o chip novamente para ver se volta ao normal! - Mas tirar o chip de onde, moça? Eu nem sei se o celular tem um chip. - Qual é a marca do celular, senhor?
Desesperado, recorri a uma saída honrosa: - Eu posso levar o aparelho em um posto da Claro? A única coisa que sei de celular e fazer e receber ligação e colocar para carregar. - Fique à vontade senhor. Se não der certo o senhor volta a ligar e a Claro agradece por o senhor ter ligado... Terminei a conversa com um gosto de derrota. Como pode? Uso celular há tanto tempo e nem sabia que tinha um PIM, um PUK, um chip? Devia recorrer ao meu neto, que tem quatro anos de idade. Mas como estava distante dele o jeito foi ir a um posto de atendimento mais próximo me informar. Aprendi tudo sobre a nova tecnologia GSM. Descobri também que a bateria é móvel e que tem um chip embaixo. A única coisa que não deu certo foi retornar os serviços no aparelho. Deixei para resolver o problema em Teresina. Dia 19/10, sentindo-me em casa, minha arena, fui à loja Claro. Serviço Autorizado, com garantia. Certeza que tudo seria resolvido no ato. Pra começar entrei numa fila concorrendo à atenção de uma funcionária da informação com mais onze pessoas. Quatorze minutos de espera. Quando cheguei lá que iniciei a conversa a mocinha digitou alguma coisa, puxou uma senha e pediu gentilmente que eu aguardasse a chamada sentado. Ih! Mau sinal. Esperar sentado é mau agouro. Tudo bem. Comportei-me como quem não tinha mais nada a fazer e aguardei trinta e seis minutos sentadinho, olhando os folhetos de propaganda de telefone e aprendendo os milagres das novas tecnologias. Celular também serve para fazer fotografia, gravar conversa do vizinho, mandar e-mail. Sobre PIM e PUK, nada! Minha vez! - Bom dia, moça. Eu estou sem comunicação no meu aparelho desde o dia 15 e só aparece esta mensagem aqui na tela quando eu ligo. - Ah senhor. O seu chip queimou. O senhor vai bem ali naquele balcão. Levanta qualquer um dos terminais fixos e fala direto com a Claro. - Mas eu já fiz isto e não consegui me entender com a moça porque entendo pouco da linguagem tecnológica. Você pode me instruir de como vou me comportar agora? - Diga apenas que o seu chip está queimado e quer autorização para trocar. Depois que o senhor tiver a autorização, peça o número do protocolo que a gente providencia rapidinho. - Muito agradecido. Você foi muito gentil. Obrigado mesmo, viu? - Não por isto, senhor. É um prazer poder ajudar. Fui ao telefone, falei com a moça do 1052, depois das chateações iniciais de ouvir as instruções e passar o número do telefone etc. etc. - Ocorre que meu chip queimou, segundo o pessoal aqui da loja Claro, onde estou no momento. Você pode me dar uma autorização para troca e o protocolo? - Qual é o número do seu chip novo senhor? - Como meu chip novo? Eu só tenho o queimado. - Mas eu só posso lhe fornecer autorização se o senhor já tiver comprado um chip novo. - Mas moça aqui na loja disseram que eu tenho que ter uma autorização para trocar o chip depois. - Desculpe senhor. Mas autorização só é possível depois que o senhor tiver o número de um chip novo. O senhor compra e depois liga para nós, sim? - Desculpe a insistência, senhorita. Mas aqui na loja Claro me disseram o contrário, Você pode me dizer por que essa divergên... - O senhor compra o chip a liga. Obrigado por ter ligado, tenha um bom dia. - Desculpe a insistência... Voltei ao balcão de informação da loja. Reclamei da instrução mal passada e a moça mesmo sem querer reconhecer que havia se enganado, autorizou a compra. Deu-me uma nova senha para entrar na fila do atendimento de venda. Após mais quinze minutos consegui chegar lá. Comprei o maldito do chip virgem e tive a primeira visão da coisa. Um cartão do tamanho de um cartão de crédito, com um cartãozinho interno picotado, para ser destacado. Tipo um comprimido de medicamento na sua cartela. Aperta do lado aposto que sai. Olhei, li as instruções. Descobri finalmente onde estavam o PIM e o PUK no novo chip e fui contente para casa, de onde planejei restabelecer a linha do meu inseparável celular... Agora já um pouco abandonado. Sim porque depois de cinco dias descobri que se pode viver sem esse aparelhinho miserável que cria dependência. Que nem droga... Ah e por via das dúvidas já experimentei e traguei. Só que não gostei. Banhado e arejado, deitado em uma rede cheirosa, liguei novamente para o já fatídico 1052. - Fulana falando, bom dia. Com quem eu falo? - Meu nome é Marcus - De-me o número de seu celular com o código de área, senhor? Passei o número conforme o pedido. - Em que posso ajudar? - O chip de meu celular queimou e eu já falei com vocês aí para comprar um novo chip. Estou com ele aqui na mão e quero instalar. - Por favor me dê o número do protocolo, senhor. - Mas que protocolo? - Quando o senhor falou a primeira vez com a Claro alguém fez um protocolo. O senhor pode me passar o número? - Não posso porque não tenho. Disseram-me para comprar o chip e depois ligar. - Sei, senhor, mas foi aberto um protocolo e o senhor não deve ter pedido o número. - E como eu faço agora, se não tenho esse número? Se fui instruído diferente? - Sinto muito, senhor. Para eu estar verificando o problema tenho que ter o protocolo. - Tudo bem, moça, por eu estar de saco cheio vou estar desligando. Depois eu vou estar ligando novamente para estar sendo atendido por outra pessoa. A que horas a senhorita não estará aí para que eu não esteja correndo o risco de ser atendido novamente pela sua má vontade? (Perdi a calma? Experimenta falar com o 1052) - Desculpe, senhor, a Claro agradece a sua ligação... As atendentes são irritantemente bem educadas. Não mudam o tom. São robotizadas. Não perdem a postura. Quanto mais desesperado o cliente, mas formais elas ficam. Dei-me conta que estava sendo deselegante, me acalmei e mudei a estratégia na próxima ligação. Antes de qualquer pergunta da atendente já me identifiquei, dei o número do celular com problema, disse que já havia comprado o chip por recomendação da Loja Claro em Teresina e que estava ligando apenas para habilita-lo. Ofereci inclusive o número do maldito. E foi aí que ouvi a pergunta que me fez ficar de excelente bom humor: - O senhor está ligando deste celular ou de outro número? - Como? Ah, por favor aguarde um instantinho que eu vou verificar... - Desculpe a espera. Agora que eu vi que estou ligando de um celular emprestado. O meu, como já lhe disse, está com problema. E é disso que estava falando. Mas não ligue, por favor. Eu sou mesmo muito distraído. - E em que posso ajudar, senhor? - Que bom que você perguntou, moça. Como já falei, eu troquei o chip do meu aparelho (dei o número novamente) e a loja Claro em Teresina mandou eu ligar para vocês aí para registrar o novo chip. - Certo senhor. No verso do chip tem um número. O senhor pode me passar? - É o mesmo do código de barras. Pode ser o do código, para eu não ter de abrir de novo o aparelho? - Não senhor. Por favor leia o número no próprio chip. Passei o número, repeti e pedi confirmação. E perguntei já comemorando, a que horas poderia ter meu celular de volta. Triste resposta. - Senhor, por medida de segurança, o seu celular será reabilitando em até setenta e duas horas. O senhor me passa um número de linha fixa para que a Claro possa estar confirmando seus dados e os dados de seu aparelho? Passei prontamente o número da linha fixa e nem notei que SETENTA E DUAS horas era tempo grande, que correspondem a cinco dias virados na meia noite. Achei que era só formalidade, também medida de segurança. Só estava mais interessado, agora, em obter, desesperadamente, e antes que ela desligasse, o número do protocolo. Consegui! Claro que nem vou encher o saco de ninguém narrando aqui as diversas ligações que fiz para o 1052, abanando o protocolo reclamando da falta de compromisso da Claro com o seu cliente mais exemplar, no caso eu. O certo é que ontem, dia 30 de outubro, ao verificar cedo que o serviço ainda não havia retornado, decorridos dez dias do momento em que coloquei o novo chip e consegui o número do protocolo, desisti da Claro. E também de ter a vida em minha mão. A vida pertence a Deus segundo a religião católica. Não fica bem desistir dela tão facilmente.
Estou saltitante, alegre e satisfeito com um novo telefone à mão. Da VIVO, para confirmar que sobrevivi. Pelo menos até quando precisar trocar o chip, ou outra rebimboca qualquer. Nem sei se tem coisa mais moderna que o chip... vai lá que tenha e eu já esteja desatualizado!

terça-feira, outubro 24, 2006

UM OLHAR SOBRE TERESINA

Coisa boa é ser dono do nariz. Trabalha-se no dia que quer, acorda-se na hora que o organismo liberar. O ruim é a falta do que fazer nas horas seguintes. Se bem que livros podem muito bem eliminar o vazio entre o acordar e a hora do almoço. Esta foi a minha experiência das últimas duas semanas, na folga que me permiti para recuperação do voto. Ou melhor, das eleições. E nesta folga, como não podia ir muito longe, passei uma semana andando – de carro que é menos cansativo, por Teresina. Fiz um reencontro com os tempos de repórter, quando me gabava de conhecer a cidade de ponta a ponta. Me perdi. Impressionante como a cidade cresceu em todas as direções. Tentei fechar os olhos para o feio. Ver apenas o belo, com o espírito poético. Juro que não consegui. Claro que a cidade é bonita, não há negar. O feio fica por conta da falta de sensibilidade do poder público, juntada aos interesses eleitoreiros e às desculpas de não se querer criar problemas sociais. Veja-se, por exemplo, a situação da margem do rio Parnaíba, em toda a extensão da avenida Maranhão. Por mais que a se plantem árvores e planejem urbanização há sempre um desempregado reivindicando a sombra para trabalhar como autônomo. A avenida é hoje um imenso lavatório de carros. Os lavadores, depois que conseguem ligar energia elétrica para as improvisadas máquinas, escolhem também a decoração da área ocupada. Existem lá tendas de palha, de molambo, de restos de propaganda eleitoral, de latas, de zinco ou plástico. O estilo é marmota, uma grande criação popular. Tudo bem que amanhã ou depois o poder público, se tiver coragem, pode dar um basta na farra. Só não vai poder, com tanta facilidade, é acabar com o monstrengo do elevado do metrô de Teresina, onde estão enterrados alguns milhões de reais. Aquilo, sim, é um atentado ao bom senso, à ecologia. É ainda mais nefasto porque é um monumento ao desperdício do dinheiro público. É um prêmio ao político desonesto. Arrisco dizer que nunca será concluído, que nunca haverá trens para utilizar o monstrengo. Mas enquanto houver próxima eleição e Alberto Silva para defender aquela irresponsabilidade, estaremos todos aplaudindo. Todos, vírgula! Eu estou fora. E a partir de hoje inicio as orações por uma santa que resolva o problema de uma vez por todas, A Santa TNT.

quinta-feira, setembro 28, 2006

VIVA A GOVERNADORA LOURDES MELO

Votei em Lourdes Melo para governar o Piauí. Dos oito candidatos, ela foi a que despertou a minha admiração. Não pela campanha, claro, que nem teve chance de fazer. No horário eleitoral produziu apenas algumas piadinhas de mau gosto. Votei em Lourdes Melo porque ela iludiu o juiz eleitoral Pedro de Alcântara da Silva Macedo. Conseguiu uma liminar inédita para participar do debate da Rede Globo. A Lei Eleitoral diz que as emissoras de TV podem fazer debates em grupos de três ou com todos os candidatos, mediante acordo com as coligações ou partidos. Complementando a lei tem a recente Resolução do TSE 22.261/06, que em seu artigo dezoito faculta às emissoras de TV deixar de convidar candidatos cujos partidos não tenham representante na Câmara dos Deputados. Nada mais justo. Se a Lei eleitoral distribui o tempo da Propaganda Eleitoral Gratuita com os partidos de acordo com as suas representações na Câmara, por que agir diferente com os debates e as emissoras de TV? Tem mais: há inúmeras sentenças nos estados e jurisprudência também dizendo que os candidatos que não têm representação na Câmara dos Deputados não têm razão em reivindicar o direito de participar de debates para os quais não foram convidados, já que as emissoras estão seguindo a Lei Eleitoral.
No Piauí, como tudo tem que ser diferente, foi diferente. A TV Clube passou dois meses investindo para fazer um debate justo, que contemplasse principalmente o eleitor. Reuniu os partidos, mostrou como podia fazer um bom debate, fez em conjunto com os partidos um bom acordo e pediu homologação ao TER.
O juiz Pedro Alcântara foi designado para relatar o processo de homologação e pediu parecer do Ministério Público. Recebeu o OK, tudo nos conformes, de acordo com a Lei. Tascou a homologação e fez a TV Clube acreditar que a partir daí estava livre para engendrar todos os preparativos que acarretariam investimentos relevantes. Além de todo o aparato de engenharia, confecção de cenário e preocupação em arranjar espaço físico para os candidatos, podia fazer as contas do tempo para distribuir entre perguntas e respostas dos candidatos. E assim foi feito. No dia do debate, usando o direito de contestar, a professora Lourdes Melo, guerreira candidata do PCO, foi ao TER pedir para entrar na festa como penetra. O pedido de liminar caiu na mão do juiz Pedro Alcântara. O mesmo Pedro Alcântara que homologou o acordo do debate e as suas regras. E foi aí que Lourdes me conquistou.
Do alto de sua confusa sapiência o juiz deu um sim antológico: in verbis – como se diz no juridiquês: “É indiscutível que o art. 18 da Resolução TSE 22.261/06 faculta às emissoras a participação em debates de candidatos sem representação na Câmara dos Deputados” – ou seja, reconhece que a TV Clube tinha razão em não convidar a candidata.
“Entretanto – prossegue o juiz, não se pode deixar de reconhecer que permitindo a legislação o registro de candidatos sem participação na Câmara dos Deputados, deixe de assegurar o direito de sua participação em debates realizados em emissoras de rádio ou televisão”. E acrescenta que foi buscar este argumento para dar a liminar na opinião do “renomado professor Adriano Soares da Costa”. Trata-se de um comentário que o renomado professor fez em um de seus livros de direito. Data Vênia preclaro juiz. E desde quando uma opinião, um comentário jurídico e um exercício de argumentação têm força de lei? Diz o renomado professor Adriano em sua argumentação: “Ora, se a legislação admite o lançamento de candidaturas por pequenos partidos, é curial tenham eles idêntico tratamento aos demais, sob pena de admitir a quebra do princípio do equânime tratamento dos candidatos, criando duas categorias de candidatos”. Ok, lindo raciocínio. Mas eu também penso e garanto que há várias categorias de candidatos. Se houvesse só uma o próprio TSE não os trataria com desigualdade na hora de distribuir o tempo da propaganda eleitoral na TV. Claro que é legítimo espernear. A professora Lourdes é uma guerreira, não desiste nunca. Tinha o direito de pedir o que pediu. O ilegítimo é penalizar uma emissora que agiu corretamente, dentro da lei, acreditando na Justiça Eleitoral. Sou concorrente do renomado professor Adriano. Sem ser tão renomado, tenho opinião pra tudo. Posso dizer que igualdade é utopia de ideologia comunista. No capitalismo o que deve prevalecer são as diferenças. A vontade da maioria é regra democrática. A justiça existe para dar garantias às leis emanadas da sociedade e não para promover igualdade. (MC)
Se é para igualar, que garantisse à guerreira professora Lourdes os votos de que ela necessitava para empatar a eleição com os demais candidatos. Empatados, seria governador do Piauí o candidato que tivesse o melhor tino jurídico. Viva a professora Lourdes. Ela é acima da média! Devia ser a nossa governadora. Pena que não conseguiu voto sequer para empatar uma disputa no Sindicato dos Professores. Com o meu, ela obteve exatos 715 votos como candidata a governadora do Piauí. Menos da metade do número de colegas filiados ao SINTE, onde é líder.
(Postado sem revisão final)

quarta-feira, setembro 20, 2006

COMO ASSIM, PADRE TONY

O padre Tony Batista é uma mãe. Aquela maezona que harmoniza as diferenças dos filhos com um jeito carinhoso. Não os deixa satisfeitos, claro, mas imprime respeito nas suas decisões. Aspirou esta qualidade, provavelmente, nos estudos profundos da fé cristã, especialmente nos manuais católicos. Foi o que aconteceu agora na escolha da melhor reportagem sobre a Caminhada da Fraternidade. As repórteres Simone Castro da TV Antena 10 e Neyara Pinheiro da TV Clube dividiram o título de primeiro lugar. Dividiram o título. O prêmio não! Padre Tony deu um jeitinho e mandou pagar o valor integral do prêmio às duas equipes premiadas. Vi as duas matérias concorrentes. Embora enfoquem o mesmo tema, obvio, uma é completamente diferente da outra. Simone fez uma reportagem factual. Acompanhou a caminhada, contou uma boa história, flagrou a emoção dos caminhantes católicos e fez uma analogia com a emoção da Copa do Mundo, porque era época da competição. Neyara Pinheiro também recorreu ao mote Copa do Mundo. A analogia foi para mostrar os preparativos do time que organiza a Caminhada. O time que se mistura aos torcedores – os caminhantes, no dia da caminhada, para expressar a emoção da solidariedade. Não fosse uma mãe, padre Tony teria batido o martelo e dito qual das duas merecia o primeiro lugar. Para o critério do tema proposto o prêmio seria de Simone. Foi ela que discorreu mais sobre a Caminhada em si. Neyara foi mais além. Mostrou os preparativos, usou linguagem paralela de edição, fez uma produção além do que pedia o regulamento. A comissão julgadora do padre Tony não viu isto. E, mesmo sendo de cinco pessoas, por incrível que pareça, no final do julgamento empatou as duas reportagens. Como assim, empatadas com CINCO votantes? Não há lógica matemática na Igreja Católica? Desígnios de Deus não se explicam. O padre Tony herdou a ambigüidade da Igreja Católica. O Deus do catolicismo, para agradar a todos, se divide em Pai. Filho e Espírito Santo. Mas rigidamente a gente tem que compreender que é um único Deus. Jesus, o Deus filho, tem mais de cinqüenta mães. Há Virgens Santíssimas para todos os gostos. E todas as Virgens, de todos os lugares, são a mãe verdadeira do filho do Homem. E entenda-se “o Homem” aí como Deus verdadeiro, embora o filho também o seja. No lugar em que não há Pai ou Filho, nem Espírito Santo – se é que isto é possível, o povo se apega a um pedaço de pau cruzado como símbolo milagroso. É o caso de Santa Cruz dos Milagres. A Igreja Católica diz que está tudo certo. Não pode é desagradar. Simone Castro e Neyara Pinheiro, que ganham modestamente bem e não corriam atrás do prêmio em dinheiro, mas do titulo de primeiro lugar, de melhor reportagem, devem estar orando agora e pedindo perdão a Deus pelos pensamentos impróprios que tiveram para definir o resultado festivo da competição. Festivo e de um colorido facial gracioso. Circular.

terça-feira, setembro 19, 2006

A LÓGICA DO PT

Em dois momentos da minha vida, ao que eu me lembre, torci pelos bandidos: no roubo ao Banco Central em Salvador e, mais recentemente, no roubo ao Banco Central em Fortaleza. Em salvador os bandidos esconderam-se, no início de um feriado prolongado, dentro do banco e saíram de lá com um caminhão baú cheinho de dinheiro. Em Fortaleza cavaram um túnel. Ninguém saiu ferido nos dois casos, a não ser o moral dos chefes de segurança. Fiquei assustado ao perceber que estava torcendo pelos bandidos. Mas aos poucos vi que não era só eu. Com os amigos e conhecidos que conversava, confessando um pouco de vergonha por isto, ao contrário de reprimenda, recebia novas confissões. Na verdade quase todos os brasileiros tiveram o mesmo sentimento. Talvez pelo planejamento cinematográfico, pela inteligência e paciência dos criminosos, pela espetacularidade com que a mídia expôs o fato. A hipótese mais provável, no entanto, tem natureza psicológica, pelo menos aqui no Brasil. Os números apresentados nos assaltos têm o poder de extasiar, de fazer-nos inverter os valores. Quem rouba pouquinho é ladrão de galinha, merece cadeia. Quem rouba milhão merece o perdão. Senão como explicar que Lula ainda esteja cantando de galo? Quando começaram os escândalos, com as notícias de que a turma do presidente estava comprando deputado a preço de banana, com míseros trinta dinheiros por mês, no chamado mensalão, quase cassaram o mandato do presidente. Foi só o carequinha xará Valério entrar em cena, falando em milhões surrupiados das estatais, de negociatas e em maracutaias, a opinião pública se inverteu. Aquele era o homem. Passamos a torcer a favor. Afinal o esquema não era coisa de qualquer bandidinho ladrão de galinha. O PT aprendeu que para fazer bons negócios é necessário mais do que uma mixaria na cueca. Tanto é verdade que já agora, para comprar um punhado de papel sem valor, um assessor especial do presidente foi preso com um milhão e setecentos mil. Tudo bem que a gente sabe que nos partidos há os oportunistas, os arrivistas, que chegam de pára-quedas. No PT não! Toda a intelectualidade do crime é gente que tem passado e história na sigla. O mais fraco talvez seja o Delúbio, ou o Silvinho Pereira, ou ainda o tal de Freud, o pobretão de um milhão e setecentos. Seguindo a lógica, para abafar de vez mais este escândalo, o presidente Lula precisa tomar uma posição, além daquela de ser o bobo da corte.
Mas por favor, presidente, quando for para assumir não venha com cifras paupérrimas. Fale logo em milhões. Lembre-se que Collor de Melo foi cassado porque era ladrão de galinha. Foi surpreendido aceitando um presentinho de menos de vinte mil reais, um Fiat Elba. Semelhante ao presentinho que o senhor recebeu sem querer do amigo e companheiro Paulo Okamoto. Aquele pagamento da dívida, lembra?

quinta-feira, setembro 14, 2006

O VOTO "A NÍVEL DE" MAÇONARIA

Estou ainda sem candidatos para representar-me na Câmara dos Deputados e na Assembléia Legislativa. Há uma semana acompanho pelo rádio a propaganda política e não consegui ouvir nenhuma proposta decente dos novos postulantes. Há os que dizem besteira, os que se apresentam como médico, como advogado, como trabalhador, como sindicalista e por aí vai. De minha parte, como não estou doente nem precisando de assistência jurídica e tenho uma certa desconfiança de sindicalista, preferi ficar na dúvida.

Tentei me fixar nos candidatos que tentam a reeleição. Mas eles só apresentam trabalho na área que não me diz respeito. Um Deputado Federal, por exemplo, afirmou que merece ser reeleito porque destinou cerca de 800 mil reais para acabar com as gambiarras de energia elétrica nas favelas de Teresina. Até o final de 2007 todo favelado vai receber dinheiro para fazer uma ligação de energia legalizada. Não sou favelado e nem consumo energia de gambiarra. Portanto este já está fora das minhas intenções. Se fosse favelado também não votaria nele. Se tivesse energia de graça, roubada do poste da esquina, por que iria querer fazer uma ligação registrada para pagar conta? Tem candidato que promete criar emprego. Não diz em que área nem explica que o trabalhador tem que ser qualificado. Como estou empregado não me seduz esta promessa. E o pior: a grande maioria dos candidatos só promete e garante que vai salvar os pobres. Vai dar a eles melhores condições de vida, de trabalho, de educação, de segurança. Eliminei aí mais um bocado porque não sou pobre, embora precise de educação de qualidade para meus filhos e netos e segurança para minha família. Mas os candidatos não querem saber de mim. Eles dizem que os ricos podem pagar. Como também não sou rico me sinto perdido. E sem proteção, e sem candidato. Recebi em minha casa alguns candidatos, desses que andam de porta em porta apertando mão e se apresentando como legítimos representantes da “comunidade”. A maioria escolheu uma má hora para me visitar. Estava em descanso ou brincando com meu neto. Foram eliminados porque atrapalharam o meu sossego. O melhor candidato que recebi pedindo voto foi no meu trabalho. Chegou como quem não quer nada e se apresentou como irmão. "A nível de muito respeito e cumplicidade" - dizia ele. Como assim, irmão? – Perguntei. Tinha em mente que estava me confundindo com evangélico ou, na pior das hipóteses, meu pai teria feito alguma coisa muito agradável com a mãe dele. Só caiu a ficha quando ele pediu um papel, assinou rebuscadamente o nome e colocou três pontinhos em forma de triângulo no final. “Reconhece este sinal a nível de irmandade?” – Perguntou ele. Claro que reconheço, disse-lhe. Eu também gosto de enfeitar a minha assinatura, embora desniveladamente, com três pontinhos. Aí ele se animou e começou a falar da seriedade da Maçonaria, porque candidato maçom era de confiança, além do que deveria existir “entre nós maçons o compromisso de solidariedade a nível de irmãos”

Quando ouvi o “nós maçons” me senti um verdadeiro Grau 33, detentor do absoluto segredo da Maçonaria. Foi aí que resolvi testa-lo com os meus conhecimentos maçônicos: “Diga-me, meu irmão, qual a medida exata entre o centro do focinho e a ponta do rabo do maçônico Bode Preto?” O irmão simplesmente não soube responder e saiu pela tangente dizendo que "o Bode Preto, a nível de Maçonaria, não passa de uma fantasia". Perdeu meu voto, o irmão. Não posso votar, ser solidário ou parente universal de um candidato que não conhece, a nível de maior segredo maçônico, as medidas de um bode.

sexta-feira, setembro 08, 2006

NÃO CONHEÇO TERESINA

Estou entrando em pânico. Num beco sem saída. Provavelmente pela falta de sinceridade. Por ser bairrista. Nos encontros de trabalho em outras capitais sou o mais intrépido defensor do Piauí, de Teresina. Não aceito gozações de que aqui é quente, que é o Estado mais pobre e essas coisinhas que as pessoas de fora têm como a mais relevante informação. Nunca imaginei que um desses colegas de fora quisesse me por à prova. Pois foi o que aconteceu agora. Um amigo de João Pessoa manda-me um e-mail e telefona confirmando que pretende passar três dias em Teresina, com a mulher e um casal de filhos adolescentes. Viagem de férias. Quer conhecer o melhor da capital piauiense. Está inquieto para ver os encantos de que tanto falo com muita paixão. Vem no final da primeira quinzena de outubro.

Pombas! E logo no período de mais calor? Alguém pode estar pensando que isto é besteira, que o mundo todo sabe que aqui faz calor. Portanto não se justifica a minha apreensão. Não se justificaria, não fossem as respostas secas que dou aos gozadores do Piauí. Esse amigo, por exemplo, uma vez me perguntou o que existia aqui além do calor escaldante. Imediatamente perguntei o que ele conhecia do Brasil, além da fama falsa do calor de Teresina. Falsa fama... deixa estar! Não há de ser nada, pensei após receber o e-mail. Vou arrasar com uma boa programação de nossas coisas. Vejo com tristeza agora que “coisa” é um excelente substantivo. Desde que você não saiba ao certo do que vai falar. Procurei a programação de Teatro para outubro. Se houver, ainda não tem nada definido. Corri para o site da PIEMTUR. Nenhuma informação sobre Teresina, a não ser algumas fotografias da cidade e um texto, uma espécie de crônica surrealista. Sonho de realidade. Fala mais do que queremos ser do que realmente somos. Na descrição dos parques ambientais da cidade a única coisa que se aproveita são os números das leis que os criaram. Nós que moramos aqui sabemos como estão hoje. Basta visitar dois: Parque Poticabana e Parque da Cidade... Lembrei das agências de viagem. Liguei pelo menos para três delas, as maiores segundo a minha avaliação, perguntando o que teriam para oferecer aos visitantes como opção. A resposta em todas foi uma graça. No geral a especialidade delas é tirar o teresinense daqui para conhecer outras capitais, outros países e as praias exuberantes do Nordeste. Sei que posso pegar os filhos adolescentes do meu amigo e jogar nos shoppings. Sim mas e daí? Além de levar o meu amigo para almoças e jantar, e nisto Teresina, para quem pode pagar bem, tem fartura, o que mais posso fazer? Por favor quem tiver costume de enganar amigos visitantes me socorra. Não vale informação de folheto de balcão de hotel, nem opções de compras, nem indicação de artesanato. Ele é do Nordeste. Quem gosta de balangandã feito a mão é paulistano, carioca e europeu. Mas quero lembrar também que antes de entrar em desespero já consultei todas os nossos balcões de informação turística. O que não estava “sem funcionar no momento” o telefone constava como número errado. Tudo bem, eu sei que Teresina recebe centenas de pessoas de outros Estados. Afora os doentes que buscam tratamento, tem os turistas de eventos e encontros de trabalho. Tem os arrivistas, tem os bem intencionados e representantes comercias. E efetivamente meu amigo não se enquadra nestas categorias. Não quero fazer com ele o que as agências de viagens fazem com os teresinenses, com a lógica de que o melhor da cidade está no aeroporto, com o embarque confirmado, ou na Ladeira do Uruguai, saída para Fortaleza e para as praias piauienses.

sábado, setembro 02, 2006

CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA? TÔ FORA!

Aprendemos, eu e toda pessoa normal, que quando a esmola é grande o cego desconfia. E este é um ensinamento que vem de nossos bisavós. Bem a propósito, tive alguns desentendimentos por causa disto. O mais emblemático é com os ecologistas. Que o digam os amigos Judson Barros e Alcide Filho. Se bem que os dois têm menos interesse que a grande maioria. Ecologistas estão sempre fazendo discursos apaixonados em favor da natureza. Existem centenas de ONGs bem abastecidas de grana para defenderem os animais e as plantas. A mais notória organização é o Greenpeace Internacional, que tem ramificações no Brasil. Não dou um vintém por nenhuma. Sou a favor da vida humana. Da vida inteligente, produtiva. Para preserva-la e alimentá-la não ligo se vão morrer centenas de baleias, bois, cabritos, macacos, onças, guaribas e bichos-preguiça. Tampouco me incomoda a devastação de matas para plantar grãos ou criar gado. Ecologistas e ONGs espalham pelo mundo, jurando que é verdade, que o planeta Terra está ameaçado de ficar sem água potável. Que a solução é preservar a Amazônia, pulmão do mundo, que a floresta deve ser um bem da humanidade, deve ser internacionalizada. Até a ONU entrou no discurso. Sou um analfabeto em ecologia, em ecossistemas e outros neologismos criados para colocar na moda os interesses de uns poucos. Mas bobo, não! Ninguém vai me convencer que um planeta feito de água, com calotas polares gigantescas, com oceanos ainda inexplorados, deve se preocupar com essa bobagem. Para o argumento de que ninguém bebe água salgada do mar, dou o testemunho da inteligência humana para criar tecnologia capaz de dessalinizar todos os oceanos. Tecnologia, aliás, já obsoleta. E estou expondo esta posição anti-ecológica antiga porque li hoje uma entrevista que o site www.oquintopoder.com.br divulgou com o pensamento de Gelio Fregapani sobre a preservação da Amazônia. E Fregapani não é qualquer jornalistazinho metido a besta, como eu, que sai colando opinião sobre o que gosta e o de que não gosta, mesmo quando não entende do assunto. Gelio Fregapani (apresentação colada do site) “...é o maior conhecedor da Amazônia. Gaúcho, é o mentor da Doutrina Brasileira de Guerra na Selva. Para atingir a capacidade de iniciativa de tal magnitude já esteve em praticamente todos os locais habitados e muitos dos desabitados da Amazônia, inclusive a selva, aquela que poucos conhecem e que nem uma hecatombe nuclear destruiria. Fala também mais de uma língua indígena Fregapani já conduziu geólogos a lugares ínvios, chefiou expedições militares e coordenou expedições científicas às serras do extremo norte e onde dormem as maiores jazidas minerais da Terra. Desenvolveu também métodos profiláticos para evitar doenças tropicais, tendo saneado as minas do Pitinga e a região da hidrelétrica de Cachoeira Porteira. Coronel do Exército, serviu à força durante quatro décadas, quase sempre ligado à Amazônia, tendo fundado e comandado o Centro de Instrução de Guerra na Selva. Há mais de três décadas, vem observando a atuação estrangeira na Amazônia, o que o levou a escrever Amazônia - A grande cobiça internacional (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas), apenas um título de sua bibliografia. Ele está convencido de que a grita dos ambientalistas serve a interesses americanos e de que a ferrugem da soja foi introduzida no Brasil por concorrentes da grande nação do norte. Para Fregapani, a vocação da Amazônia, além da produção de metais, é a silvicultura. “Se nós plantarmos 7 milhões de hectares de dendê na Amazônia, extrairemos 8 milhões de barris de biodiesel por dia, o que equivale à produção atual de petróleo da Arábia Saudita.

Muito bem. Quem quiser continuar sendo ecologista de carteirinha pode abandonar o assunto. Mas se quiser pelo menos ter uma noção de como questionar as grandes esmolas que esse pessoal quer dar à humanidade, com sua luta, aconselho o site www.oquintopoder.com.br para ler a íntegra da entrevista do Fregapani. Após o acesso clica na coluna Soberania Nacional. E nem precisa acreditar em tudo que o Fregapani diz.